GRÉCIA: A MEDICINA TORNA-SE CIÊNCIA
- Hipócrates, pai da Medicina -
Ranulfo Cardoso Jr. ([1])
Com o passar do tempo, a medicina, que era mágica, religiosa e empírica, foi contraposta a uma medicina científica, caracterizada por uma atitude de compreender e explicar. Com a ajuda da observação e da experiência, todos os fenômenos presentes no Ser Humano e relacionados à saúde ou à doença eram estudados. Considera-se a Grécia o berço da medicina científica.
A civilização grega, em seus primórdios, utilizou-se da matemática egípcia e da astronomia babilônica para fundamentar a filosofia e a lógica da medicina. Acreditava na influência dos deuses, nas questões relativas à vida e à morte, e a doença era vista, inicialmente, como castigo divino. Os médicos que se projetavam eram unidos às divindades. As mais antigas informações sobre médicos gregos encontram-se no épico Ilíada (Homero), escrito entre 750 a.C. e 725 a.C.
O mundo grego da era clássica era o mundo do apto e do sadio (apesar de as doenças não serem raras e a expectativa de vida estar em média em torno de trinta anos, a julgar pelas lápides funerárias). O ser humano ideal era uma criatura equilibrada no corpo e na mente, e de proporções definitivamente harmoniosas – não esqueçamos que esta era uma época de grandes artistas, particularmente na escultura. Tal concepção de saúde encontrava também suporte religioso. A medicina grega, baseada na mitologia, associava cura a diversas divindades.
Os gregos cultuavam, além da divindade da medicina, Asclepius, ou Aesculapius, duas outras deusas, suas filhas : Hygieia, a Saúde, e Panacea, a Cura .
Esculápio possuía, portanto, duas filhas que o auxiliavam na arte de curar: Panacéia – versada em conhecimentos sobre todos os remédios da terra, capaz de curar qualquer doença humana (a palavra panacéia é utilizada hoje em dia para significar “o que cura tudo”) – e Hígia (ou Higéia) – responsável pelo bem-estar social, pela manutenção da saúde e prevenção das doenças, cuidava da higiene e da saúde pública (deriva dela o termo hígido = o que é sadio).
Em vários momentos a Mitologia mistura-se com a História, restando à dúvida se Esculápio de fato existiu. Seu nome aparece na Ilíada como um médico famoso, bem sucedido ao tratar feridos na Guerra de Tróia.
No século V a.C., o pensamento humanístico na Grécia tomava consciência de seu próprio valor e de suas possibilidades, havendo campo para o surgimento da medicina científica. A filosofia representou enorme influência, por seu caráter inquisidor e racional. A escola filosófica de Pitágoras (580-489 a.C.), sediada na cidade de Crotona (Itália meridional), proporcionou fundamentos para a medicina científica.
O médico mais famoso da escola de Crotona foi Alcmeon, jovem contemporâneo de Pitágoras, que deu bases científicas à medicina grega. Era um mestre da anatomia e da fisiologia – descobriu os nervos óticos, a trompa de Eustáquio (trompa auditiva que liga o ouvido médio à faringe) e fez a distinção entre veias e artérias. Em sua obra “Sobre a Natureza” ofereceu explicações plausíveis sobre doenças e sugeria meios de prevenção e cura. Entendia a doença como um desequilíbrio do corpo, sendo esta desarmonia decorrente de diversos fatores, como má nutrição (dietas irregulares ou inadequadas) e fatores externos (clima e altitude).
Sobre Hipócrates, pouco se sabe sobre a sua vida.
Hipócrates (460 a.C.), considerado pai da medicina, era filho e neto de médicos, aprendeu medicina com os mesmos, na então famosa Escola de Cós. Substituiu os deuses pela observação clínica de seus pacientes. Foi idealizador de um modelo ético e humanista da prática médica. Criou métodos de diagnóstico, baseado na inquirição (filosofia) e raciocínio (lógica). As descrições de Hipócrates costumavam ser precisas e objetivas. Escreveu diversas obras (a ele atribuiu-se 72 textos e 42 histórias clínicas). As obras éticas e o juramento do médico, usado até os dias de hoje, fazem parte do chamado Corpo Hipocrático (Corpus Hippocraticum).
Alguns autores referem que os vários escritos que lhe são atribuídos provavelmente foram não o trabalho de uma única pessoa, mas sim de várias, talvez ao longo de décadas. De qualquer maneira são escritos ricos em sabedoria e que traduzem uma visão racional da medicina; o texto intitulado “A Doença Sagrada” começa com a seguinte afirmação: “A doença chamada sagrada… não é, em minha opinião, mais divina ou mais sagrada que qualquer outra doença; tem uma causa natural e sua origem supostamente divina reflete a ignorância humana”.
Hipócrates desenvolveu extraordinariamente a observação empírica, como o demonstram os casos clínicos que deixou registrados, reveladores de uma visão epidemiológica do problema de saúde-enfermidade. Hipócrates também considerou o modo de vida das pessoas: “são glutões e beberrões, e conseqüentemente incapazes de suportar a fadiga, ou, apreciam o trabalho e o exercício, comem e bebem moderadamente?”
Tais observações não se limitaram ao paciente em si, mas a seu ambiente. Em “Dos Ares, das Águas e dos Lugares”, discute os fatores ambientais ligados à doença; defende um conceito ecológico de saúde-enfermidade, ao mesmo tempo em que enfatiza a multicausalidade na gênese das doenças:
“Quem quiser prosseguir no estudo da ciência da medicina deve proceder assim. Primeiro, deve considerar que efeitos cada estação do ano pode produzir, porque todas as estações não são iguais, mas diferem muito entre si mesmas e nas suas modificações. Tem que considerar em outro ponto os ventos quentes e os frios, em particular aqueles que são universais, mostrando bem aqueles peculiares a cada região. Deve também considerar as propriedades das águas, pois estas diferem em gosto e em peso, de modo que a propriedade de uma difere muito de qualquer outra. Usando esta prova, deve examinar os problemas que surgem. Porque se um médico conhece essas coisas bem, de preferência todas elas, de qualquer modo a maior parte, ele, ao chegar a uma cidade que não lhe é familiar, não ignorará as doenças locais ou a natureza daquelas que comumente dominam” , (HIPÓCRATES).
Na Grécia, onde a gente vai encontrar como maior referência a figura de Hipócrates (conhecido como o “pai da medicina”), observamos que a idéia de desequilíbrio (ou disnomia) dos organismos humanos está presente, mas as concepções gregas de saúde e doença são enriquecidas por meio de cuidadosas observações da natureza e pelo nascimento da prática clínica. O equilíbrio (ou isonomia) era conseqüência da harmonia perfeita de quatro elementos: terra, ar, água e fogo. Os gregos estabeleceram correspondências entre os humores (sangue, linfa, bile amarela e bile negra, ou atrabile), seus elementos, qualidades e órgãos-sede. Dessas noções, ficaram para resgate da história somente os qualificativos para os temperamentos: sangüíneo, fleugmático, bilioso e atrabiliário. Sem nenhuma dúvida Hipócrates foi um observador atento, mas não valorizou a experimentação. Há que se destacar o registro lógico e preciso das suas observações, mas ainda, sem metodologia científica (“A apoplexia é mais comum entre as idades de quarenta a sessenta anos; a tísica ocorre mais freqüentemente entre os dezoitos e os trinta e cinco anos…”).
Hipócrates referia-se à sua atividade como uma “arte”: “A vida é tão curta, a arte demora tanto a aprender, a oportunidade vai logo embora, a experiência engana e o julgamento é difícil”. Para alguns, ele não praticava a ciência médica, mas a ARTE DE CURAR. Uma arte que levou às raias da perfeição, aos limites do possível, e que viria a influenciar o pensamento médico durante muito tempo.
BIBLIOGRAFIA:
GUSMÃO, S. História da Medicina: evolução e importância. Disponível em: http://scholar.google.com.br Acesso em: 22 de julho de 2008.
JAEGER, WERNER Paidéia: a formação do homem grego. 3a ed. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo, Martins Fontes, 1995.
SCILIAR, M. Do mágico ao social: Trajetória da Saúde Pública. Rio de Janeiro: SENAC, 2002. 160p.
SIQUEIRA-BATISTA, Deuses e homens. Mito, filosofia e medicina na Grécia Antiga. São Paulo, Landy, 2003.
SIQUEIRA-BATISTA, R. e SCHRAMM, F. R.:Platão e a medicina.História, Ciências, Saúde . Manguinhos, vol. 11(3): 619-34, set.-dez. 2004.
[1] Ranulfo Cardoso Jr. é médico em Saúde Pública. Desde 2003, ocupa o cargo de Gerente Operacional das DST/Aids da Secretaria de Estado da Saúde da Paraíba. É professor de Epidemiologia na Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba, em João Pessoa, PB (2008).


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